Manual de instruções da “maternagem”

Sou enfermeira, especialista em saúde pública, e tenho dedicado minha vida profissional a promover e apoiar a amamentação. Mãe de três filhos, a caçula já com 21 anos, lembro bem que os primeiros anos não foram fáceis.
Durante a gravidez não conversava com meu bebê por puro desconhecimento. A ansiedade sobre como lidar com ele era tanta que minha cabeça dava voltas: como vou saber se ele está com fome ou com frio? Não sabia, nem podia imaginar, o quanto seriam importantes o som da minha voz, o toque carinhoso e o aconchego no meu peito.
Minha primeira gestação coincidiu com o início da carreira profissional, no começo dos anos 80. Trabalhava em saúde pública e coordenava grupos de gestantes num posto de saúde. Naquela época, os profissionais (e obviamente eu também) possuíam pouco conhecimento sobre o que hoje chamamos manejo da amamentação. Convictos de que amamentar era bom para a criança, porém desconhecendo a relação entre a autoconfiança da mãe e uma adequada produção de leite materno, entendíamos que promover a amamentação significava insistir para que as mães amamentassem.
Lembro do quanto senti falta de um “manual de instruções” para lidar com minha primeira filha. O que mais angustia as mães, hoje e sempre, ainda mais as de primeira viagem, é o choro do bebê. Essa insegurança traz, muitas vezes, sofrimento desnecessário, além de levar a iniciativas como dar mamadeira, gerando o encerramento precoce da amamentação.
As razões dessas dificuldades, porém, foram esclarecidas quando participei do primeiro Congresso de Aleitamento Materno que aconteceu no Brasil. Foi em Porto Alegre, em 1985. Nesse evento, além de frequentar cursos, convivi com grupos de apoio mãe a mãe. Nesses momentos, além da maioria das minhas dúvidas serem esclarecidas, pude falar de meus sentimentos e perceber que não estava sozinha. 
Pude conhecer ONGs que apoiam o aleitamento materno, com as quais trabalho até hoje: Amigas do Peito, La Leche League Internacional, Rede IBFAN (International Baby Food Action Network).
Ainda hoje, se a mulher encontra dificuldades ao amamentar, em geral sente-se culpada, frustrada, mesmo que ninguém faça cobranças. Isso aconteceria com bem menos frequência se vivêssemos numa sociedade preocupada com o bem-estar das mulheres e dos bebês. Para ajudar, é fundamental ouvir a mulher, conhecer suas dúvidas e oferecer ajuda de ordem prática para a resolução das pequenas dificuldades diárias.

Celina Valderez Feijó Köhler, enfermeira, Conselheira em Amamentação (OMS/UNICEF), membro da IBFAN Brasil