Os primeiros mil dias da vida do bebê

Mil-dias

Do momento da concepção até os dois anos de idade, os primeiros mil dias da vida do ser humano representam um período de extremo aprendizado tanto na condição de feto quanto depois, pois o bebê desenvolve intensa atividade cerebral com milhões de divisões celulares de seus neurônios.

Não é a toa que os cuidados com a saúde começam ainda durante a gestação quando, por exemplo, até mesmo o paladar do feto já é influenciado pelo tipo de alimentação da mãe.

Da mesma forma, a demonstração de afeto nesta fase será decisiva para toda a vida, o que pode favorecer o desenvolvimento de um ser humano mais seguro, feliz e, portanto, melhor para o convívio em sociedade.

Segundo o pediatra José Martins Filho, presidente da Academia Brasileira de Pediatria e professor emérito da Unicamp, o bebê já nasce com bilhões de neurônios e até por volta dos dois anos as divisões celulares e a formação de sinapses são intensas, o que representa uma capacidade elevadíssima de armazenamento de informações, ou seja, a “janela de oportunidades”.

Estudos apontam que metade do crescimento cerebral da vida inteira ocorre até os dois anos, ou seja, proporcionalmente, os mil primeiros dias de vida representam o período de maior potencial de desenvolvimento em menor intervalo de tempo. “Nesse período, além do aleitamento, a presença da mãe e da família é fundamental para o ótimo desenvolvimento cerebral. Por esse motivo é uma fase de grande importância para o resto da vida”, explica.

É nessa etapa da vida que a criança se desenvolve motoramente, ou seja, levanta a cabeça por volta dos dois meses, senta com seis, engatinha com sete ou oito meses, anda normalmente com um ano e fala as primeiras palavras e frases quando chega aos dois anos.

DESENVOLVIMENTO

Isso tudo depende dos seus neurônios e das suas sinapses, mas, também, do ambiente que a cerca, seja intrauterino ou familiar. “Deixar de compreender isso e não valorizar esse cuidado e esse contato são erros graves que podem repercutir para o resto da vida”, avisa.

De acordo com o médico, trabalhos científicos mostram que crianças sem vínculos, desmamadas precocemente e sem incentivo e apoio podem apresentar problemas comportamentais importantes na vida, como agressividade, violência, dificuldades escolares, entre outros. “Não basta que a criança seja amada. Ela tem que sentir que é amada”, destaca.

Portanto, na opinião do especialista, a ida para a creche aos três ou quatro meses representa riscos do ponto de vista emocional, pois os bebês começam a entrar em contato com vários cuidadores precocemente, o que pode marcar negativamente o seu desenvolvimento psicológico, rompendo o fundamental vínculo com a mãe.

Além disso, ele menciona risco para a saúde, pois antes dos dois anos os bebês têm baixa imunidade e ficam expostos às bactérias e vírus de todas as demais que frequentam a mesma instituição. “Até porque muitas mulheres não hesitam em levar seus filhos para a creche mesmo que estejam com febre e diarreia. E o riso aumenta para todos”, alerta.

LICENÇA MATERNIDADE

Diante dessas agravantes e da necessidade de projetar uma sociedade melhor, mais justa e menos violenta para toda a humanidade, a luta para aumentar a licença maternidade no Brasil para pelo menos um ano é fundamental, no seu entendimento. Essa bandeira inclui uma maternidade e paternidade também mais conscientes, o que passa por uma reflexão individual também quando o assunto é planejamento familiar.

Segundo ele, na maioria dos países onde há preocupação com a infância e com o futuro da humanidade, o período de licença maternidade é de dois anos. “Os governos deveriam saber que esse tempo mais extenso se torna inclusive muito mais barato do que criar creches em tempo integral ou atender aos pedidos de creches a noite ou até nas férias. O melhor lugar para uma criança antes dos dois anos é ao lado da mãe”, enfatiza.

Ele lembra que bebês deixados em creches precocemente ficam muito mais enfermos e necessitam de cuidados de saúde, medicamentos, atendimentos médicos, exames e até internações.

Nas empresas ou nas instituições públicas, as ausências das mulheres nos seus postos de trabalho também se tornam muito frequentes neste período em que deveriam estar com seus filhos.

RESPONSABILIDADE

Categórico, Martins Filho reforça que as novas gerações não podem ser abandonadas pelos mais velhos, com o pretexto de que as mães precisam trabalhar e ganhar dinheiro. “Educar, cuidar e amamentar são funções cansativas e que dão trabalho. Quem não tem trabalho para cuidar de um filho é porque não o está cuidando. Eu sempre termino minhas conferencias dizendo que é melhor não ter filhos do que, tendo-os, e não cuidar”, declara.

O pediatra lembra também que se tornar mãe ou pai é uma atitude de grande responsabilidade e é preciso pensar nesse assunto com muita atenção e carinho. Frases como: “E eu?”, “Como vou aproveitar minha vida” ou até mesmo “Esse bebê me sufoca” traduzem a insegurança em se tornar pai e mãe nos tempos de hoje. “Muito da violência, do abandono e da falta de alegria do mundo em que vivemos, preocupado mais com o ter e não com o ser, com o erotismo e com a ganância, reflete essa insegurança paterna e materna”, finaliza.


 

Pediatra José Martins Filho

Presidente da Academia Brasileira de Pediatria

Professor titular, emérito, de pediatria da Unicamp

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