Janelas de oportunidades

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Os novos conhecimentos em pediatria são revolucionários e proporcionam uma reviravolta no que sabíamos sobre a vida emocional dos bebês e das crianças principalmente até os seis anos afinal, nessa fase ocorrem as imensas modificações cerebrais caracterizadas por um processo aceleradíssimo de divisão celular cerebral.

Segundo o pediatra José Martins Filho, presidente da Academia Brasileira de Pediatria e professor emérito da Unicamp, há quem diga que o que se aprende nesse período curto é muito maior do que tudo que o indivíduo aprenderá no resto da sua vida, mesmo que seja um gênio matemático, filósofo ou grande catedrático de qualquer matéria intelectual. “E isso tem uma importância vital, pois muitas dessas sinapses que estão no cérebro às vezes não são utilizadas, como se fossem chips em um computador, que nem sempre tem um programa para ser utilizado”, compara.

Esse programa é o que a criança vê, sente, cheira, ouve e armazena. Há muito tempo que a explicação para pequenos gênios musicais ou linguísticos era tida como uma sorte genética. Mas, à luz das novas verdades científicas, parece que a epigenética e, principalmente o meio em que essa criança vive, têm muita relação com o aproveitamento desse espaço a ser utilizado. “É isso que os cientistas chamam de ‘janelas de oportunidades’. Sabemos que crianças que ouvem música na gestação, no ambiente físico dos primeiros anos de vida ou estão sob a carga linguística de várias línguas acabam por ter muito mais facilidade na vida futura para o desenvolvimento dessas aptidões”, afirma.

No entanto, é bom lembrar que não é por esse motivo que se deve exagerar nessas informações. A orientação é apenas favorecer o contato com esses estímulos. Assim, famílias bilíngues, em que pai, mãe ou avós falam idiomas distintos, por exemplo, é interessante se comunicar com a criança com as várias línguas das pessoas que estejam perto dela.

A mesma dica é válida em relação ao contato com outros eventos, como a música, que deve ser oferecida naturalmente e de forma variada, sem monotonia. “Não adianta ‘encharcar’ a criança com música clássica, rock ou jazz. Ela deve ouvir de tudo, conforme as características normais dessa família”, aconselha.

Além dessa fase potencial para o conhecimento, esse período também pode ser marcado por outros fenômenos abordados no livro que o pediatra lançou recentemente: “O nascimento e a família. Alegrias, surpresas e preocupações”.

Além dos primeiros mil dias da criança (tema de reportagem na edição anterior da revista Vida bebê), a obra aborda as janelas de oportunidades e o estresse nas crianças pequenas e mesmo nos lactentes, cujos efeitos muitas vezes passam totalmente despercebidos pela família.

ESTRESSE PRECOCE

Hoje um novo conceito chamado de ETP (Estresse tóxico Precoce) vem sendo estudado e tem relação com os primeiros mil dias, com as janelas de oportunidades e com o desenvolvimento do sistema nervoso central.

Esse fenômeno pode representar sérias repercussões para o resto da vida, como dificuldades escolares, violência, déficit de atenção e mesmo transtornos de hiperatividade.

O ETP é muito comum em crianças terceirizadas, que recebem pouca atenção dos pais ou passaram por um grande sofrimento.

Segundo o especialista, as crianças submetidas a esse tipo de sofrimento tendem a se manter em alerta corporal e emocional máximos, com a liberação de vários hormônios provenientes do cérebro e estímulos principalmente que vem do hipocampo cerebral e das amigdalas cerebrais, que estimulam constantemente as glândulas suprarrenais a liberar adrenalina e principalmente hormônios (ACTH).

Essas substâncias são responsáveis por manter os corpos de todos os mamíferos, e claro, das crianças, também em constante atenção para reagir a alguma agressão.

Esse estado de alerta é o responsável por respostas imediatas diante do perigo, como correr, saltar, voar, gritar ou se defender de um ataque e esse contínuo “banho” dessas substâncias é lesivo para o cérebro.

Os trabalhos mostram que crianças que sofrem esse estresse tóxico precoce são muitas vezes lesadas, com dificuldades neuronais, com perda de neurônios e destruição das sinapses. “Há crianças nessa situação que, pasmem, acabam tendo diminuição do volume cerebral e isso claro, com todas as consequências terríveis de déficits neuronais claros causados muitas vezes inadvertidamente por pais ou famílias que não tem ideia da importância de atender prontamente crianças que choram”, afirma.

Segundo ele, elas devem ser acolhidas, cuidadas com afeto e com muito carinho e atenção. “Porque se uma criança tem uma família que não a deixa chorar prolongadamente, que atende seus anseios, seus medos e intranquilidades, o organismo sente o medo e sofre o estresse, mas ele não é tóxico”, observa.

Isso porque, ao ser atendido, o organismo dessa criança não desencadeia essa resposta na via hipotalâmica adrenal (ou via do estresse tóxico) e os danos e as lesões cerebrais podem ser evitados ou minimizados.

O médico pondera que obviamente é preciso saber que as crianças têm uma resposta diferente a esses estímulos estressantes e muitas a resiliência, que é a capacidade de resistir ou neutralizar esses fenômenos.

EXAME

Atualmente já possível, através de exames como ressonância magnética cerebral ou até pela medida da concentração de cortisol na saliva, saber o grau de estresse de uma criança e o que possível fazer para ajudá-la.

Estes estudos estão sendo desenvolvidos em algumas instituições internacionais, entre elas a faculdade de medicina da universidade de Harvard. “Cada vez mais podemos documentar claramente os efeitos danosos de atitudes inadequadas para com nossas crianças, como os reflexos da terceirização”, destaca.

Por isso, Martins Filho insiste que sairia muito mais barato e viável para o Brasil adotar uma legislação que prevê uma licença maternidade maior, no mínimo de um ano e, se possível, de dois anos. “Uma criança só tem imunidade adequada para se defender das agressões físicas e psicológicas a partir dessa faixa etária”, finaliza.

Mini executivos

O estresse tóxico não existe apenas na fase de bebês e lactentes, embora nesse período as lesões ocorram com mais facilidade. Crianças que não têm lazer ocioso com tempo livre para brincar com amigos ou cujos pais ou mães estão ansiosos o tempo todo também sofrem com o problema.

Além da escola e das tarefas, a soma das aulas de inglês, espanhol, karatê, futebol, natação, enfim, o excesso de atribuições e compromissos podem transformar crianças em mini executivos, o que também representa uma vida altamente estressante.

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